Crônica: Sobre máscaras e personagens


É preciso ser sincera: existe uma dificuldade imensa em ser professora quando se é introvertida. Aliás, não só em ser professora. Ser introvertida faz com que todo contato com outra pessoa seja potencialmente complexo: o universo da pessoa introvertida está interditado ao encontro com o outro, tudo parece insignificante demais para ser dito e, por outro lado, é inaceitável que você somente deixe-se estar ali, em silêncio. O ser humano, afinal, é um ser social. Como você, introvertido, ousa não socializar?
Para lidar com esse abismo entre o que se espera e o que se tem a oferecer, as pessoas – e os introvertidos especialmente – criam suas máscaras, personagens que são incorporados no momento de realizar tarefas que, sem tais máscaras, seriam inalcançáveis.

Eu, por exemplo, criei uma personagem para atuar em sala de aula. É uma personagem confiante, divertida, comunicativa. Uma personagem com sacadas espirituosas e conhecimento da linguagem virtual contemporânea, conhece os menes e brinca com eles, satisfazendo-se quando consegue o riso geral, contornando habilmente a situação quando é algo que a turma não conhece. Uma personagem que nem de longe sou eu.

Mas gosto muito dela. Vou vestindo-a no trajeto até a universidade. Divirto-me com seu bom humor e espontaneidade. Admiro-a. Ela tem um ar pacífico, apaziguador. Não chega a ser maternal, mas tem um carinho que faz com que as pessoas se sintam inseridas. Queria muito ser minha personagem. Queria saber, como ela sabe, o que conversar com os alunos ao final da aula, como envolvê-los. Cruzei com uma ex-aluna por um caminho na universidade e ouvi-a dizer para outra que eu fiz com que ela aprendesse a gostar de literatura. Sorri, entre feliz e deslocada: na minha mente, uma voz triste dizia “não fui eu, querida, foi uma personagem. Uma personagem te ensinou a gostar do mundo ficcional em que ela habita, justamente por ser ali seu lar”.

O mais difícil de ser assim, múltipla, é encontrar alunos ou alunas fora da universidade. Quando estou despreparada. Quando estou despida. Leva tempo para vestir uma personagem, e se me encontram de repente, e se me encontram sem aviso, o que fazer, senão ser eu mesma? Eu, ortônima, agindo como sou de verdade: inábil, tímida, sem saber que assunto conversar. Falo do clima? Falo das férias? Pergunto sobre colegas? Não sei. Sorrio com dentes e olhos o mais que posso, como se dissesse: “olha, eu e sua professora compartilhamos algumas coisas, como o carinho por vocês, a felicidade por encontrá-los, a paixão pelo literário. Mas ela é melhor do que eu, me desculpem. E me desculpem por não tê-la vestido aqui, foi tão repentino!”

Para evitar um pouco esses constrangimentos, em algum momento eu segredo, com o coração aberto, desejando que não me rejeitem pelo meu pecado de ser múltipla: “eu não sou exatamente assim. A gente, aqui em sala de aula, também age um pouco como atores e atrizes”. Digo isso e meu coração palpita, temeroso. “Tolerem”, eu peço. “Tolerem.”

E eu acredito que me entendam. Afinal, quando estou observando-os agir, lidar uns com os outros, eu sei – repentinamente eu sei – que somos todos assim, múltiplos. Personagens de si, também eles, cada um deles, transita pela existência criando quem deveriam ser, quem gostariam de ser. E também eles vão delicadamente escondendo e protegendo o frágil núcleo que corresponde ao que realmente são.

[pb_divider line_style=”dashed” line_color=”ECA2AD”][/pb_divider]

Crônica publicada na versão impressa de O Diário do Norte do Paraná em 24 de outubro de 2015.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

Você também pode gostar

LEAVE A COMMENT

Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

Se inscreva no canal!