Crônica: Humanos


Clarice Lispector certa vez traduziu um texto que falava do realismo em arte. O texto fechava com a conclusão de que fazer perguntas sobre a arte é fazer perguntas sobre a vida, já que uma e outra são interligadas ao ponto de serem como uma coisa só. Se a vida é cada batida de um coração, a arte pode ser o silêncio que preenche o espaço entre tais batidas – ou, ao contrário, talvez a arte seja as batidas, o impulso, e a vida não seja mais que o que se passa nos intervalos… Não sei, divago sobre esses temas. E me deixo divagar. É uma delícia.

O texto me fez lembrar de Antonio Candido quando escreveu que a literatura humaniza e que ela deveria ser compreendida como um direito do ser humano. Um direito! Não é lindo? Mas, nesse caso, todo indivíduo deveria não só ter acesso à literatura, mas também acesso à sua compreensão – o que nem sempre acontece…

(CENA: Entrego pilhas de livros a uma pessoa que não é alfabetizada e digo, “está aí, estou te dando as condições necessárias” – como sou ridícula! De que lhe serve tantos livros se a pessoa nunca aprendeu a ler? Não basta ter uma literatura riquíssima, vasta, se não se aprender o que fazer com ela. A literatura é, assim, uma coisa de se aprender a fruir, não tem mágica.)

No lugar de literatura, facilmente podemos dizer arte de forma geral, porque ela também “serve” para isso: a humanização do ser humano. Até porque, curiosamente, não basta ser um humano para ser Humano – note a diferença. Sete bilhões de humanos se arrastando sobre a superfície da Terra e tão poucos são Humanos, dispostos a olhar para os outros com um olhar compreensivo, dispostos a aceitar que ninguém é melhor do que ninguém, sentir a dor do outro, dar ouvidos às suas reivindicações.

A arte nos ajuda nisso: nos tira dessa caixinha forrada de espelhos e mostra o que está para além. Mostra que somos poeira de estrelas, apenas um segundo no grande relógio do universo. A arte desautomatiza nosso olhar, desacostuma. Deixa dentro da gente um inconformismo, um desconforto: o desconforto da humildade, da consciência da própria finitude, o desconforto de ser somente mais um humano. E isso nos faz Humanos melhores.

Nós precisamos das artes. São elas que nos afastam da barbárie do egocentrismo e completam nossa realidade. Arquitetura, escultura, pintura, música, dança, poesia, cinema, teatro… Se tiramos isso, o que resta? Máquinas, eu arrisco. Máquinas de dormir e acordar. Máquinas de comer e evacuar. Máquinas de consumir, gastar, produzir crianças e objetos dos quais não precisam. Máquinas. Máquinas apenas, repetindo e repetindo eternamente a própria mesquinhez e solidão.

E já temos máquinas demais. Máquinas não são felizes. São inanimadas, entram em pane e se autodestroem. Não precisamos de máquinas. Precisamos de Humanos que pensem, que sintam, que se irmanem. Humanos que se reconheçam, que colaborem, e que, poeira de estrela que são, se deixem brilhar e iluminar o céu cinzento que paira sobre o vasto concreto de nossas vidas.

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Crônica publicada na versão impressa de O Diário do Norte do Paraná em 29 de outubro de 2016.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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