Crônica: Passarinha


Quintas-feiras geralmente não são dias para delicadezas. As coisas se constroem morosas e cansadas, e a delicadeza não se move em coisas duras: precisa de mais cuidado e disposição. Foi, porém, justamente em uma quinta-feira que se deu a coisa mais delicada que já me aconteceu.

Era hora de voltar para casa e o sol girava ardido, gritando nomes feios. Minha cabeça pesava sobre os ombros e eu abri o carro como o afogado que alcança uma tábua em meio a um naufrágio e percebe que se salvou. Dirigi duas quadras em um entorpecimento mecânico e de repente percebi que algo de muito importante tinha se dado: o mundo se havia tomado de certa simpatia por mim e eu recebia seu abraço na forma de um filhote de andorinha que se agarrava ao limpador de para-brisa, fragilidade em corpo vivo.

Parei o carro em estado de graça. Havia um pequeno anjo olhando para mim. Saí devagar, mal respirando, e a maternidade que eu não quero, a maternidade que rejeito, me incitava a trazer aquele pedacinho de mundo para perto do peito.

Me aproximei arriscando deixar voar. Ela abriu a boca bem grande, pedindo comida. Era criança e – que sabia de si? Envolvi num pano qualquer e levei para casa, disposta a cuidar até que estivesse pronta para partir (mal sabia eu o que doía). Comprei gaiola, preparei ninho e, sem perceber, abri também o coração.

Dos dias que se passavam, eu mal não sentia. O tempo era todo poético, observando uma vida que se fazia toda de sustos e afetos. Dormia em minha mão, comia dos meus dedos e, quando eu a colocava na gaiola, tentava a todo custo sair para se aconchegar de volta perto de mim, como a uma igual.

Cacei insetos para lhe dar, me apaixonava por suas asas negras, apelidei de Passarinha. Com o tempo, deixei que passasse algumas horas no jardim de inverno, onde começou a ensaiar pequenos voos. Coisa ingênua. No fim, mal saia do chão, em seus laivos de bicho voador.

Dali a duas semanas, em outra quinta-feira morosa e salobra, depois de a ter deixado treinando no jardim de inverno, fui buscá-la para alimentar (dizia eu, ainda que fosse mais para ficar vendo-a existir, sacodindo as asas, gorjeando). Quando fui pegá-la, com as mãos mais delicadas que eu tinha, escapuliu-se, voando em círculo até uma folha mais alta da palmeirinha plantada ali. Meu coração já enrijeceu pela antecipação de algo que eu não entendia ainda. Ferida, rejeitada, estendi mais uma vez as mãos em sua direção, apenas para ser interrompida novamente por mais um voo circular que a levou para cima do telhado.

Entrei em desespero, chamei ajuda, pedi que subissem na casa para procurá-la, tudo em vão: ela já não estava lá. Desaparecida… e independente, livre. Eu: solitária, despedaçada. O ciclo se fechou completamente: na primeira quinta-feira eu nasci, na segunda fui mulher, na terceira me vi morta. À chegada se seguiu a permanência e a despedida, mas eu, incompleta, não havia me preparado de todo (a gente nunca se prepara).

Da maior delicadeza que vivi, só me ficou essa lágrima represada no fundo do olho e um ouvido mais atento toda vez que um pássaro me chega à janela. É que esse tipo de saudade não tem como tirar, fica meio encravada no corpo, costurada na alma. E é delicada. Profundamente delicada.

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Crônica publicada em O Diário do Norte do Paraná em 10 de dezembro de 2016, uma ou duas semanas depois da partida da Passarinha.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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