Crônica: Zé Fini


Meu pai costumava usar essa expressão todo o tempo. Ainda deve usar, acredito, mas nossa convivência já não é tão frequente como na infância, motivo de eu não a ouvir mais. Acabava o filme, Zé Fini, acabava o doce, Zé Fini, acabava (insira aqui qualquer outra coisa passível de acabar) e Zé Fini. Quando era criança, repetidamente me perguntava o que esse Zé tinha a ver com tudo isso, apesar de entender que ele era a marca do final de algo. Era um Zé malvado, amigo de Dona Morte, talvez um seu subordinado. Nunca consegui definir muito bem. Mas eu estava tão ocupada com minha existência infantil que isso não fazia muita diferença mesmo.

Nessa semana lembrei novamente da expressão, por ocasião de… bom, estamos saindo de 2016 (já não era sem tempo), Natal já foi, Ano Novo vem aí… A hora não podia ser mais propícia para o Zé aparecer: 2016 enfim vai embora, acabou, Zé Fini.

Desta vez, porém, tive a curiosidade de procurar a origem da expressão e descobri que vem do francês “c’est fini”, significando “é o fim”, “está acabado”, ou algo em torno disso. Em um dicionário informal que encontrei na internet, a grafia abrasileirada nem leva o Zé em consideração. É Zefini, palavra feia, desagradável. Toda a magia do Zé se esvaiu e o gosto que fica é: às vezes é melhor não saber.

Assim como com isso de fim de ano. A gente gosta da ideia de ciclo, de renovação. Precisa dela. É como se deixasse para trás todos os erros, o que perturbou, o que foi ruim. É como se pudesse começar todas as vezes do zero, e começar do zero é algo extremamente revigorante. A gente entra no ano novo com mais disposição, com mais coragem, mais boa intenção.

O que é melhor não saber nesse caso é que o tempo, na verdade, segue sempre em frente. (Desculpem o aparente pessimismo, mas) ele não apaga o que passou, ele não te dá uma folha em branco. A folha que você tem é a mesma, sempre a mesma. O que se pode fazer é tentar passar para outro espacinho que esteja em branco para continuar escrevendo. A gente não tem borracha e só escreve à caneta. Quando erra, rasura a página, rabisca, até tenta passar um corretivo líquido. Mas o erro permanece ali, não importa quantos anos novos se acumulem uns por sobre os outros. A vida continua ali.

Só que esse tipo de coisa é melhor não saber – ou melhor fazer de conta que não sabe. É melhor estourar aquele champanhe, pular as sete ondas, comer o que quer que se coma na virada do ano como garantia de que o que virá será melhor. Se agarrar ao mito, à esperança, sabe? É melhor pensar que uma era nova vai se inaugurar quando der a meia-noite no dia 31. E eu concordo. É muito melhor mesmo. Nós dependemos dos nossos mitos, nos construímos a partir deles. Somos realmente melhores em janeiro do que fomos em dezembro, tentamos com mais força, com mais coragem. Isso faz toda a diferença. Ainda que, no fundo, a vida seja sempre para frente.

Mas é bom parar por aqui, ainda tenho que achar romãs e lentilhas e frutas secas e os mercados devem estar uma loucura!

Zé Fini.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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