Crônica: Amor real


Essa é a história de um amor real. Não se desaponte, porém, por não ser um amor como os que a gente vê no cinema e na TV. Esse é um tipo de amor diferente, o tipo que só se pode sentir pelas criaturas delicadas. Por aquelas que não sabem de si. Aquelas que não devolvem o afeto senão por instinto. Aquelas que nos reeducam o sentido e a emoção.

Eu a vi nascer. Em casa, numa caixa forrada com um lençol velho e uma canga de outros verões. Estive ao lado durante todo o tempo, vi quando o primeiro sopro de vida se mexeu dentro de um corpinho que cabia inteiro no centro da palma da minha mão, meu deus. Um corpo tão pequeno, mas que palpitava todo vivo. Como cabia tanto mistério em tão pouco espaço?

Três gatinhas. A mãe exausta e tranquila. As recém-nascidas se movendo como os dias que passam. Se você olha bem, sem pressa, sem precipitações, o instinto é uma coisa muito delicada. Pelo menos esse primeiro instinto, que dê um lado derrama cuidado, de outro anseia por vida.

E as gatas cresceram, etecetera. Uma foi adotada por um amigo. Duas ficaram em casa, com a mãe. Amadas com a suavidade que pedem os gatos: sem possessividade, sem exigências. Depois de oito meses de vida, passaram a fazer discretos passeios pela vizinhança. Uma era mais corajosa e amigável, a outra mais tímida e medrosa. A mãe acompanhava as duas de longe, sempre cuidadosa. Mas, antes de completarem um ano de vida, uma delas desapareceu.

Começara a sair para passear pelo muro do vizinho, às vezes no meio da noite. Voltava pela manhã, esfomeada e cansada. Comia, cumprimentava a quem estivesse em casa e dormia, para depois voltar a ensinar o que era viver com um bicho gato – só ela ensinava. A outra, amedrontada, não queria ensinar nada, preferia se manter a salvo.

No dia em que ela não voltou, senti que uma parte de mim havia sido arrancada. Eu sei: quebrei o pacto da relação com felinos. A primeira exigência nessa relação é deixar livre, e não fui capaz. Passei dias com os ouvidos atentos, esperando que ela voltasse, de repente, como se nada tivesse acontecido. Andei pelo bairro, invadi terrenos vazios. Desconfiei de todos os vizinhos e, ainda assim, nada de retorno. Todas as vezes que as cachorras latiam, eu corria para a janela só para entristecer: não era ela. No escuro, confundia as outras duas, imaginava que a desaparecida voltara.

Até que houve um dia em que minha mãe me mandou uma foto em um aplicativo de mensagens. Eu estava no trânsito, ouvi o barulho do celular e algo em mim vibrou. No semáforo, olhei o painel de notificações, vi que era uma imagem, mas não abri. Mantive o celular ao lado, ainda que o sinal continuasse vermelho e houvesse tempo. Calculei que fosse uma foto da gata, um registro do retorno da pródiga felina, descansando da farra de uma semana. Imaginei que ela estivesse suja, e que eu precisaria lhe dar um banho demorado. Cogitei se ela me estranharia ou se viria me agradar depois dos dias que passou distante. Construí castelos e a expectativa me dava um leve frio na barriga, fazendo com que o trânsito demorasse tempo demais para fluir.

O que se passou foi doce. Dirigia como se fosse ao encontro de um destino sempre ansiado. Os erros dos outros motoristas não me incomodavam, apenas o tempo parecia distendido, muito longo, muito demorado.

Em frente de casa, lembrei que talvez fosse melhor ver o que realmente era a mensagem.

Era uma imagem qualquer retirada da internet, com uma frase motivacional.

A gata nunca mais voltou.

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Crônica publicada na versão impressa de O Diário do Norte do Paraná em 21 de janeiro de 2017.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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