Crônica: Análise


Comentei com minha analista que, depois de um bloqueio meio longo para narrativa, estava escrevendo uns contos. Aliás, estou. O assunto veio no meio de uma conversa sobre sonhos, realização, e também sobre aquela sensação de incapacidade que de vez em quando bate no meio do dia e te joga contra a parede sem qualquer piedade. Estou no doutorado, mas frequentemente me vejo às voltas com a questão, “será que eu sei o suficiente para lecionar? Será que eu sei alguma coisa?”, por mais que tenha tido bons resultados lecionando e me sinta como no meu habitat natural. O mesmo acontece com a escrita, “será que eu sei mesmo escrever?”

Mesmo aqui, neste exatíssimo momento, estou pensando nisso. É um serzinho pessimista montado num dos meus ombros, sibilando no meu ouvido. Mas o foco desta crônica não é (bem) esse. O fato é que comentei com minha analista que estava escrevendo, e ela me perguntou, “sobre o que você está escrevendo?”, e houve um apocalíptico silêncio na sala. Talvez ela sequer tenha percebido o quanto foi apocalíptico, na verdade, muita coisa acontece só no fundo da gente, mas abriu-se um abismo na minha mente e eu comecei a pensar que se aquela janela na minha frente estivesse aberta e estivéssemos alguns andares acima eu certamente teria pulado de lá para acabar com o silêncio.

É que eu percebi que não é muito fácil responder a essa pergunta (além de ser uma pergunta muito íntima, mesmo para uma analista). Não acontece muita coisa do lado de fora das minhas personagens. Parece que tudo o que tem que acontecer só funciona no de dentro, numa luzinha que se acende ou se apaga no pensamento de alguém em decorrência de alguma coisa, muitas vezes mínima, que acontece no cotidiano. Eu tenho uma personagem que é idosa, lembra de algumas situações de sua vida, sofre por antecedência pelo isolamento em que acredita que vai cair quando se aposentar (no universo dessa história ainda era possível se aposentar) e, inconsolável, chora. Esses são os fatos da história, mas mesmo assim ela se estende por umas três páginas A4. E isso é muito conflitante para mim.

Conflitante porque eu realmente gosto da vida interior das pessoas, então nada faz mais sentido do que eu estar quase sempre escrevendo justamente sobre esse profundo nosso. Mas, ao mesmo tempo, não é uma coisa que eu consiga resumir de modo a fazer um sentido lógico (tudo precisa ser lógico? – a analista perguntaria). Não há grandes peripécias, o que há são microscópicas explosões no de dentro, às vezes imperceptíveis para as personagens que estão ao lado daquela que vive os conflitos.

E eu gosto muito de ler textos assim, desses que mergulham. Mas, ao mesmo tempo, fiquei constrangida por não saber resumir o que eu estava escrevendo em uma sequência de acontecimentos. Como se, não sendo assim, estivesse de alguma forma “errado”. E, eu sei, não está. Só que como eu me convenço a não me transformar em um bichinho acuado cada vez que alguém me faz a assustadora pergunta? Me diz?

Acho que é por isso que eu faço análise.

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Crônica publicada na versão impressa de O Diário do Norte do Paraná em 04 de fevereiro de 2017.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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