História da Carochinha


Era uma vez, numa mata não tão distante, uma comunidade de aves diversas. Aves. Passarinhos não, pois algumas aves se ofendiam em serem chamadas de passarinho. Então, para evitar desconfortos, ninguém chamava ninguém de passarinho. Aves, nesse quesito, são como humanos: se respeitam muito. A não ser entredentes. A não ser entre os íntimos. A não ser quando se sentem no direito de não respeitar.

Entre as aves de lá, havia um Papagaio que levava as fofocas da mata para todos os ninhos. Ele sabia quantos ovos Cegonha tinha ajudado a chocar, quantas aves Urubu tinha enterrado. Sabia das viagens da Andorinha e das apresentações artísticas do Flamingo. Tanta coisa acontecia na mata! Mas, às vezes, o Papagaio se entediava com as histórias ouvidas, que eram sempre muito parecidas. Daí se dava que, vez ou outra, quando contava uns contos, aumentava uns pontos.

Certa vez, calhou de encontrar um Periquitinho azul e branco, mal saído do ninho. Por ser assim, tão docemente ingênuo, comentou com o Papagaio – bem por acaso, sem intenção – que todas as aves deveriam ser azuis e brancas como ele. As outras cores eram feias! Era tão lindo ser azul e branco, com umas manchinhas pretas aqui e ali, parecendo um céu com nuvens onde se vissem sombras de aves voando. Chegava a ser romântico. E infantil também, já que era um Periquito tão novinho.
Mas o Papagaio, por mais que tivesse trocado bem mais plumagens que o Periquito, não era cuidadoso com o que dizia por aí. Não perdeu tempo. Em todo ninho matracava a inocente verdade do Periquito como a Nova Ordem da mata sobre como deveriam ser as coisas, ou melhor, as cores. Era imperioso ser azul e branco, que não viessem com outras cores (horrorosas, todas elas).

Os Periquitos verdes, amarelos, cinzentos, sentiram-se muito injustiçados. Eles eram dessas cores e não dava pra mudar. Aliás, nem queriam mesmo. Gostavam de suas cores, o verde imitando a mata e o amarelo, o sol dourado que os aquecia. Os cinzentos viam em suas cores uma repetição das cores do amanhecer. Por que ser apenas azul e branco, se havia tantas cores para se ter?

Dona Sabiá, marronzinha, acabou por tomar as dores também. E mesmo o Seu Tucano – colorido, com um pedacinho branco, mas sem o tal azul. Se até o Papagaio era verde e amarelo, porque aquilo de falar que deviam ser azuis e brancos? Quase ninguém da mata se encaixava (ainda que muitos tivessem um pouco de azul aqui, um pouco de branco ali). Dona Sabiá e Seu Tucano chegaram mesmo a questionar o Papagaio a respeito – em separado: Sabiá e Tucano não se bicam. Papagaio continuou firme, “foi o que o Periquito disse, que posso fazer? É assim que é”.

Era mesmo o que faltava: Papagaio cantando de galo. O Periquitinho era pouco mais que um bebê, o Papagaio não podia alardear tanto aquilo, como se o Periquito fosse um especialista em colorações de aves. Aliás, por que não festejar as várias cores da mata, em vez de se ater a uma cor só – possível, sim, mas apenas uma entre todas possibilidades de cores que existiam?

A única paz de Dona Sabiá era saber que todas as aves crescem. Algumas chegam até a amadurecer, e mudam suas formas de ver o mundo. Não que mudem de cor. E nem que precisem: é bom ter cores diferentes num mesmo espaço. Nisso, as aves são como humanos: um dia aprendem a se respeitar.

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Crônica publicada na versão impressa de O Diário do Norte do Paraná em 25 de março de 2017.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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