Crônica: Relligare


“Onde está escrito isso?”, eu perguntava, perscrutando o livro infantil que minha mãe lia em voz alta para mim. Como podia haver tantas histórias e aventuras morando naqueles rabisquinhos no papel? Eu não sabia. Mas o certo era que os livros já faziam parte da minha vida antes mesmo que eu soubesse ler. Objetos, animais e bonecas falantes, todos encontravam morada na minha imaginação a partir do momento em que, pelos livros, minha mãe os apresentava para mim. De dentro de casa, visitávamos castelos, vilarejos, bosques. Foi um período de grandes viagens.

Entrei na escola já alfabetizada e – o êxtase! – lia tudo o que aparecesse na minha frente, letreiro de ônibus, bula de remédio, conta de água e luz. Lia pelo prazer de desvendar, lia por uma curiosidade intrínseca sobre o mundo. Lia procurando algo que eu ainda não sabia que buscava: talvez respostas, talvez as próprias perguntas.

Quando fui para a primeira série, fui apresentada a um lugar que dali por diante seria meu templo, o altar da minha adoração: a biblioteca. Pedia a ajuda da minha mãe ou das professoras para escolher os livros, e o primeiro que levei para casa se chamava A Porta. Era um poema do Vinícius de Morais em forma de livro ilustrado. Comprido, imitava o formato da porta. “Eu sou feita de madeira/Madeira, matéria morta/Mas não há coisa no mundo/Mais viva do que uma porta”. As crianças decoravam o Pai-Nosso na aula de educação religiosa, eu só decorava versinhos. Era minha religião. As rimas me divertiam e me ensinavam coisas que não eram muito objetivas. Eu sequer sabia que tinha aprendido algo. Mas o triste dia de devolver o livro para a biblioteca era também o dia em que eu percebia: hoje eu estou um pouco maior por dentro.

Foi nessa altura que comecei minha coleção de palavras. Do poema da Porta, guardei prazenteira e supetão, as duas que nunca havia lido antes, e que me causaram grande impacto: sempre preferi as trissílabas e polissílabas, palavras que ficavam morando dentro da boca por mais tempo antes de sair da gente de vez, palavras que a gente se estica pra que caibam inteiras dentro do pensamento, e pra que caibamos dentro delas também. Palavras feitas para colecionar mesmo. E, meu segredo: para mim, não há nada melhor do que encontrar, bem por acaso, sem pretensão, uma palavra colecionável no meio de um livro qualquer.

Depois de A Porta, vieram Ou Isto Ou Aquilo, A Bolsa Amarela, alguns títulos da coleção Vaga-Lume, histórias em quadrinhos, fábulas clássicas. Lembro claramente de uma versão de A Raposa e As Uvas, um livro grande, ilustrado, um dos primeiros que me inquietou. A raposa desdenhava as uvas por não conseguir alcançá-las, e aquilo de alguma forma me parecia humano demais para uma raposa. O novo sacramento da minha religião eram as metáforas, as alegorias, a magia da fábula que, falando de animais, falava da humanidade.

Quando olho para trás, acho que essa foi minha catequização, minha iniciação religiosa nessa que é a única fé que eu sei professar: a literatura. Para mim, nada salva o humano de forma mais profunda, nada nos conecta mais com o diferente, com o mundo e a sociedade como um todo. É minha comunhão.

Amém.

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Essa crônica surgiu como parte de um exercício em um Curso de Escrita Criativa, e foi publicada inicialmente na versão impressa de O Diário do Norte do Paraná em 04 de março de 2017.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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