Crônica: Angústia


Até ter uns 18 anos, eu nunca tinha visto um morto. O pai do meu pai morreu, eu não o vi. A mãe do meu pai morreu, eu também não a vi. Ficava sempre na casa de alguém, enquanto meus pais iam. Era um tipo de passeio que, desde pequena, nunca fiz questão de fazer: pelos rostos tristes dos meus pais ao sair e chegar, não parecia muito divertido.

Mesmo quando eu finalmente fui a um velório e vi um morto, não era um morto meu: era o morto de outra pessoa. Não me causou nada, nem uma lágrima rolou. Era como se visse uma estátua, como se fosse uma cena de filme. Era como se, depois de eu sair, a gravação fosse terminar e aquela pessoa fosse levantar, pegar o cachê e seguir sua vida. Não era a morte.

Aliás, se pensar bem, até hoje, com 30 anos, nunca vi um morto que fosse meu. Não fui ao velório do pai da minha mãe: não conseguiria. E não me arrependo, não. Eu fiquei com ele no hospital, eu estive por perto enquanto achei que devia. Depois disso, o que somos nós? É correto usar o verbo ser quando a gente já não é?

A verdade é que fujo de velórios. Eles cutucam a alma com vara curta. Mal ouço a palavra e já fico pensando na efemeridade da vida. A mandíbula trava de pavor, ranjo os dentes. Algo de dor, algo de revolta vem borbulhando e subindo aos poucos pela garganta, como uma vontade de gritar. Praguejo: não quero um limite imposto assim, de fora para dentro, quero ser ampla, quero a infinitude.

Fico pensando no que seria dos meus espaços sem mim. Minha cama sem mim, minha penteadeira. Penduradas nos cabides, minhas roupas todas esvaziadas, anônimas, desconsoladas. Minha maquiagem sem ter o que pintar ou esconder, os livros que deixei de ler, todos empoeirando as mensagens certeiras: era exatamente o que eu precisava ler, mas já não.

E no entanto, velórios são silenciosos e, geralmente, de uma conformidade tranquila. O cheiro de um velório. A dor concentrada. Talvez o que eu quisesse mesmo fosse ver alguém chorando alto, gritando, derrubando as coisas, recusando condolências. Algo que revelasse o incômodo que há em todos nós ao lidar com o fim. Se houvesse gritos, cabelos desgrenhados, eu talvez sentisse que somos todos irmãos.

A fragilidade de sermos feitos de água e sabão. A fragilidade de existirmos por um quase, de estarmos à beira, de tudo ser ameaçador demais. Dizem que é por isso que se gosta de esportes radicais: a sensação de ser bolha de sabão e – ainda assim – subsistir. O mundo da forma como eu conhecia antes já não existe: nesse momento eu sou eu, mas bem mais. Eu venci o fato de ser fragilíssimo e isso me excita e me dá força – acho que é como devem pensar esses que se arriscam.

Eu não.

Eu apenas tenho medo e me engasgo com essa angústia na garganta. Com a pressa de viver completamente, esticar o braço e alcançar o mundo. Ser plena, plena, plena até o último suspiro, que nem sei quando vou soprar. Mas havendo ou não uma memória para além, havendo ou não a chance de olhar para trás, eu sei – eu sei – que cada pedaço do que eu fui vivendo foi sempre toda eu. Cada passo que eu dou é minha vida inteira.

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Crônica publicada na versão impressa de <a href=”http://maringa.odiario.com/” target=”_blank”><strong>O Diário do Norte do Paraná</strong></a> em 06 de maio de 2017.

Para outras crônicas, acesse a categoria Contos e Crônicas.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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1 comentário

  • Prof. Cecília e alunos Rogério e David /
    29 de novembro de 2017 at 11:43

    Thays nós lemos a crônica Angústia e percebemos que temos medo de velório, mas ao mesmo tempo nós ficamos com curiosidade: como seria morre?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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