A Alma da crônica


Até há pouco tempo, eu diria que nunca pensei muito a respeito do que é uma crônica até ter que escrever uma. Mas, na verdade, antes disso eu já achava que nunca tinha pensado sobre o que é uma crônica até ter que estudar sobre crônicas na faculdade. Hoje, sou tentada a achar que nunca havia pensado no que é uma crônica até que me perguntassem como se faz uma crônica. Quem sabe o que o futuro me reserva? O fato é que alguém me pediu ‘dicas de como escrever crônicas’ e foi revolucionário perceber que a gente nunca pensa o suficiente no que a gente acha que pensa, no que a gente acha que já é conhecimento adquirido, matéria dada, checkpoint alcançado.

Fiquei pensando no que eu podia dizer que fosse mais ou menos diferente daquilo que já estava dito nos livros. Não queria falar sobre a forma da crônica, sobre o fato de que o narrador da crônica é o que mais se imiscui ao autor – ainda que continuem sendo duas entidades diferentes –, nem sobre a extensão ou sobre o fato de a crônica ser geralmente urgente – de todos os gêneros, acho que é o que mais se relaciona com prazos, tempo – chronos.

Não. Eu queria falar sobre uma coisa que eu fui aprendendo enquanto escrevia. Ou melhor, vou aprendendo enquanto escrevo, porque a crônica continua sendo muito maior do que eu. Queria falar de uma coisa que eu tenho humilde e mansamente chamado de Alma da Crônica.

A Alma da Crônica é esse balançozinho que a crônica tem, esse requebradinho, sabe como? Essa coisa de ser descontraída e leve, mesmo quando está falando de coisa séria. Isso de ter um ritmo de conversa cotidiana, como se fosse um jeito de falar sobre aleatoriedades ao fim da tarde, sentados na calçada. A crônica tem uma voz que é dela e que a gente, quando faz uma crônica, só adota – nunca é completamente nossa. Você nunca alcança a Alma da Crônica, não é algo que se possa perseguir. Mas ela alcança você. Ou não. E daí você adia a crônica para outra hora ou, se for muito urgente, faz crônica desalmada mesmo. Mas todo mundo sabe, quando bota o olho em cima, que aquela ali não tem alma. Não tem como escapar.

Quando alguém inventou de falar sobre cotidiano no Youtube, decerto achava que fosse muito revolucionário. Não era: tem escritores brasileiros fazendo isso há séculos nos jornais. Descontraídos, às vezes ácidos, e muito sagazes, inventaram o vlog muito antes de qualquer pessoa sequer pensar em internet. Youtubers (os bons) são na verdade cronistas de uma plataforma diferente, com recursos diferentes.

Eu sei que tem gente que pode ficar chocada com isso, mas não vejo por quê. Surgem novas tecnologias e, em consequência, novas formas de expressão artística, já que o ato de se expressar artisticamente está sempre acima e além das formas pelas quais nos expressamos. Talvez o mais importante seja mesmo reconhecer a precedência: tenho para mim que o vlog deriva da crônica, assim como a crônica deriva do registro cronológico de eventos, que alguém, muito do brasileiro (porque mesmo que não fosse brasileiro de nascido, era brasileiro no jeito de ser), decidiu fazer de um modo mais descontraído.  Acho que esse é o lado do jeitinho brasileiro que a gente pouco lembra: o fato de que temos mais potencial para bobo da corte do que para reis e rainhas – ainda que haja umas Maria Antonietas dando as caras por aqui. Mas não se entristeça: ser bobo da corte não é nada mal. No fim, somos nós, bobos, os que aprendemos que a liberdade, a verdadeira liberdade, está sempre entre linhas.

 

Fotografia por Simon Petrol.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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