Sugestões de livros #01


Uma ex-aluna me lembrou nesses dias atrás que eu fiquei de mandar para a turma uma lista de sugestões de livros que eu já tinha lido e que recomendaria (acho que prometi essa lista para todas as turmas para as quais dei aula, shame on me). Então aqui estou eu.

O foco dessa postagem serão livros de literatura. Mais especificamente, romances. Assim, livros de não-ficção ficarão de fora, num primeiro momento, bem como livros de contos, poemas, teatro e infanto-juvenis, todos deixados para outra ocasião.

E mesmo esta lista aqui vai ser parcial, 13 títulos só, um número razoável, dá para se divertir por algum tempo, se forem ler todos. Não vou criar a minha versão de 1001 livros para ler antes de morrer, porque né? Não cheguei a tanto e também porque Netflix está aí para provar que excesso de opções às vezes “paraliza” a gente, que acaba sem conseguir escolher.

Já até coloquei essa lista como #1, porque a ela podem se seguir a #2, #3 e assim vai. Mas vamos aos pouco, ok?

Outras coisas importantes: vou evitar repetir autores, porque assim quem seguir a lista conhece um pouquinho de vários autores, e pode se aprofundar no que preferir. Nada impede, porém, que um mesmo autor reapareça em outra lista porque não sou obrigada (a exceção desta list, vocês verão, foi a Clarice Lispector, pq é dificílimo escolher uma opção só). Além disso, não vou apresentar as obras de forma hierárquica, ainda que eu possa fazer um comentário sobre uma ou outra, para recomedar mais fortemente a leitura.

Vamos à lista!

Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez

cem anos de soidão gabriel garcia marquezCem anos de solidão (1967) foi um divisor de águas para mim. Havia eu antes desse livro e eu depois. Sempre cito ele quando vou falar a respeito do realismo fantástico, e tem uma cena, com Remédios, a Bela, da qual eu também sempre falo a respeito, por conta do insólito que a envolve. A linguagem é super agradável e a narrativa voa, você nem percebe.

Além disso, ela tem um primeiro parágrafo maravilhoso, construído na forma de prolepse analéptica (primeiro fala de um fato do futuro, depois de um do passado, para, só então, começar a história, que se inicia num momento entre esses dois tempos. Assim, já no primeiro parágrafo o narrador “abraça” uma grande porção da história (e garante que a gente, enquanto leitor, continue acompanhando para preencher esse espaço em branco que ele já abriu).


Pedro Páramo, Juan Rulfo

pedro paramo juan rulfoPedro Páramo (1955) é outro livro que vale muito a pena. Também de escritor latinoamericano, é outra obra que vai explorar a questão do realismo mágico, trazendo muito da forma como a cultura mexicana compreende a morte para dentro da narrativa.

A leitura exige um pouco mais do leitor do que a de Cem anos de solidão, já que o tempo e o espaço parecem se fluidificar, especialmente a partir do meio da narrativa, mais ou menos. Assim, a busca do narrador por Pedro Páramo, seu pai, vai se tornando insólita, até que, em certo momento, você já não sabe se os personagens em cena estão vivos ou mortos, se se trata de uma acontecimento se dando no momento da narração ou da memória de alguém. É outro livro que faz com que você seja outra pessoa depois do final dele. O amadurecimento enquanto leitor é garantido.

 


Caderno de um ausente, João Anzanello Carrascoza

caderno de um ausente joão anzanello carrascozaLi Caderno de um ausente (2014) recentemente e fiquei completamente apaixonada. Já conhecia Aquela água toda do autor e, depois de ler Caderno de um ausente, li também Aos 7 e aos 40, mas, ainda que sejam todos lindos, nenhum deles me pegou como esse aqui. A linguagem é muito refinada e fluida, e parece que cada capítulo é construído para deixar com um nó na garganta ao final dele.

Além disso, o enrdo é inesperado e surpreendente. Se você está lendo essa lista e não sabe por onde começar, minha sugestão é que comece por esse aqui. Você não vai se arrepender.

 


Com que se pode jogar, Luci Collin

luci collin com que se pode jogarOutro enredo maravilhosamente construído é o de Com que se pode jogar (2011). Ele é dividido em três partes, referentes às três protagonistas da obra, aparentemente distantes e desconectadas umas das outras. A trama, porém, vai costurando os caminhos até que as aproxime.

Outro aspecto incrível dessa obra, bem como das outras obras da Luci, é a linguagem. Sempre gosto mais de quem subverte as regras e faz da língua sua própria matéria de expressão. Se você também gosta desse tipo de texto, com certeza vai amar.

 

 

 

 


Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

ensaio sobre a cegueira josé saramagoMais uma vez a subversão da linguagem. José Saramago é um autor que leva essa ideia de se apropriar da linguagem para transformá-la em algo seu, próprio, a limites bastante extremos, subvertendo especialmente a pontuação e paragrafação de suas obras. Não é diferente com o Ensaio sobre a cegueira (1995). A escrita dele pode chocar e confundir o leitor de primeira viagem, mas depois que você se acostuma, ela fica extremamente confortável.

Outro ponto interessante dessa obra é a temática. É o tipo de livro que você precisa de um tempo para digerir, já que vai precisar repensar todos os conceitos que você tinha em relação à humanidade.

Sobre a adaptação para o cinema, eu gosto, mas até pelos recursos disponíveis para cada modalidade artística, acredito que o filme não consegue alcançar completamente a reflexão apresentada pelo livro (ainda que o suporte visual intensifique bastante o choque do leitor/expectador em relação ao que os personagens passam).


A hora da estrela, Clarice Lispector

a hora da estrela clarice lispectorEu amo muito A hora da estrela (1977). É um livro com uma personagem cativante (Macabéa), ainda que não seja extremamente profunda como a maioria das personagens da Clarice (não estou dizendo, porém, que ela não seja profunda). Eu gosto da reflexão social que o livro traz, além da reflexão metalinguística apresentada pelo narrador (o que, como já falei aqui, se perde na adaptação para o cinema). Além disso, há essa relação/contraste entre a Macabéa e o narrador, os dois de universos muito diferentes em diversos aspectos. Ele humano, homem, classe média, estudado. Ela personagem, mulher, classe baixa, simples e ignorante.

A linguagem da Clarice é um capítulo à parte também. Às vezes as frases surgem como pequenos fogos de artifício (explosão!) e a gente fica ali, se maravilhando com aquele brilho todo.

Ela é sem sombra de dúvidas a minha escritora favorita.

 


Água Viva, Clarice Lispector

água viva clarice lispectorComo a Clarice é minha escritora favorita, não tinha como evitar colocar mais de um livro dela aqui. Então escolhi Água Viva (1973), pela carga gigantesca de lirismo, que acaba subvertendo todos os elementos da narrativa. O narrador se dissolve, se misturando com um eu-lírico da poesia. Tempo e espaço se dissolvem, imprecisos. A personagem, que é também a narradora, perde seus contornos e seu destinatário, que poderia ser considerado outro personagem, é igualmente fluido, sendo mencionado ora como um você, ora como um tu. O enredo, último elemento narrativo, também se dissolve: sai-se de parte alguma e ruma-se para lugar nenhum. Mas a linguagem, ah! a linguagem! É visceral.

 

 

 


A obscena senhora D, Hilda Hilst

a obscena senhora d hilda hilstA obscena senhora D (1982) é desses livros que deixam a gente paralizada depois que lê, refletindo ou fruindo da sensação que sobra. A Hilda também trabalha muito com a linguagem, mas, diferente da Clarice, sua obra tem um peso bem mais erótico, muitas vezes misturando o sagrado e o profano.

Gosto muito da obra dela, de forma geral, mas tem alguns textos que são um pouco too much para a minha sensibilidade, como por exemplo o Cartas de um sedutor, de 1991. Li, achei ótima a forma como ela trabalha a questão do mercado editorial por trás de uma história aparentemente “pornográfica”, mas esse “aparentemente pornográfica” foi um bocadinho intenso.

Mas, voltando para A obsena senhora D: uma das coisas que mais chama a atenção na obra é que há nela uma mistura de diversos gêneros narrativos e recursos estéticos. Além disso, os temas são muito profundos e universais, passando, por exemplo, por questões relacionadas à condição humana e ao desamparo, bem como uma busca das razões da existência.

É uma leitura que vale muito a pena.


Lavoura Arcaica, Raduan Nassar

raduan nassar lavoura arcaicaIncesto entre irmãos. Você achou que tinham inventado isso com os Lannister em Game of Thrones mas ó, o Raduan, há uns vários anos atrás, já tinha criado uma situação assim em Lavoura Arcaira (1975).

Brincadeiras à parte, essa é outra obra muito impactante, especialmente pela forma como o autor usa a linguagem. É lógico, você sente o peso da autoridade do pai da família, sente a rebeldia de André, o protagonista, sente o afeto/desejo por Ana, a irmã. Mas tudo isso só é possível devido à forma primorosa como Raduan Nassar articula a linguagem.

Lavoura arcaica, podendo, assim como Água Viva, ser considerado como um romance lírico, também tem os elementos da narrativa dissolvidos (ainda que, na minha opinião, isso ocorra em menor grau em comparação com Água Viva). Excelente leitura (e agora estou em dúvida a respeito de qual livro eu sugiro que seja o primeiro para vocês começarem a ler. Esse aqui também seria uma ótima opção).

 


Eles eram muitos cavalos, Luiz Ruffato *

luzi ruffato eles eram muitos cavalosEles eram muitos cavalos (2001) ganhou um asterisco ali em cima porque eu o entendo como romance, mas ele poderia facilmente ser entendido também como livro de contos, já que as histórias são independentes.

Esse livro tem tantas coisas incríveis que nem sei por onde começar. Mas vamos começar dizendo que algumas pessoas acham que, nessa obra, a cidade de São Paulo pode ser considerada como um dos personagens. Eu não concordo muito, acho que dizer que há uma ênfase maior no espaço já explica o suficiente a importância da cidade na obra, mas vou deixar essa questão em aberto.

Além disso, acho que o tempo também é muito importante, já que a primeira narrativa do livro acontece de madrugadinha, antes de amanhecer, e as próximas vão se passando cada uma em uma hora mais adiantada do dia, manhã, horário de almoço, tarde, noite… Até que surge uma página toda preta que, para mim, está indicando que chegou a noite de fato, é noite densa, noite fechada.

Olha só que interessante: os personagens parecem ser menos importantes na obra (ou talvez igualmente importantes – o que já é uma decaída) do que tempo e espaço. Só isso, só essa quebra de paradigma, já faz com que seja um livro de leitura muito recomendável. Afinal, porque se apegar sempre aos mesmos padrões, não é?


Vidas Secas, Graciliano Ramos *

vidas secas graciliano ramosVidas Secas (1938), assim como Eles eram muitos cavalos, também ganha um asterisco pela estrutura que fica ali, entre romance e livro de contos. Vidas Secas, aliás, foi inicialmente publicado como livro de contos. Mas, apesar de serem histórias independentes, há uma linearidade em relação a certos acontecimentos e embates. Há, por exemplo, uma linearidade bastante clara em relação à Baleia e ao Soldado Amarelo.

Eu gosto muito dessa obra, da linguagem seca, da dor que fica latente no texto. Acho que foi um dos textos que mais me humanizou durante a minha formação como leitora. Li pela primeira vez na época de escola, por conta própria, porque sempre fui uma pequena traça devoradora de livros. Eu não tinha condições de comprar o livro à época, então achei na internet e imprimi. Foi uma das primeiras coisas que baixei, na “pré-história da internet” (década de 90, não sinto saudades*).

 


A metamorfose, Franz Kafka

metamorfose kafkaA metamorfose (1915) é um livro de uma sentada. Consequentemente, já li várias vezes. E pode parecer cliché dizer isso, mas, em cada leitura, a interpretação se expande e aprofunda. Tem muito a ver com aquilo de amadurecer enquanto pessoa e enquanto leitora, além de contexto de época.

Por exemplo, uma pessoa que nunca trabalhou, ou que nunca teve um trabalho humilhante em algum grau, vai fruir a obra de forma diversa de uma que passou por isso – pois a maior parte da dor de Samsa parece girar em torno disso, a humilhação, o sistema, o utilitarismo das relações. Ter a consciência desses aspectos da socieade faz com que o leitor compreenda mais profundamente (e simbolicamente) o que vive Gregor Samsa após despertar transformado em um grande inseto.

Diferente de vários dos outros livros já citados nessa lista, Kafka não trabalha com uma linguagem muito poética, enfatizando a narrativa e o insólito do acontecimento central da obra, bem como os reflexões “sociais” de tal acontecimento. É um soco no estômago.


Bartleby, o escrivão, Herman Melville

bartleby o escrivão herman melvilleComo talvez já tenham percebido, eu não sou uma grande fã da literatura de língua inglesa. Não que eu não goste: há várias autoras e autores que me atraem (Joyce, Woolf, Mansfield, Chopin, Hemmingway, etc.), mas eu tendo a gostar mais da literatura de língua portuguesa e dos latinoamericanos. Questão de gosto. Mas optei por mencionar Bartleby, o escrivão (1853) pela pegada do livro, que, para mim, me lembra um pouco A metamorfose, do Kafka. Há também um aspecto de insólito, quando a personagem Bartleby decide responder a tudo e a todos apenas com “Acho melhor não” (e sem que isso seja uma resistência intencional, Bartleby parece estar acima – ou além, ou aquém, é difícil saber onde ele se localiza – dos nossos motivos e padrões sociais).

A versão da Cosac Naify ainda é “interativo”: antes de ler, é preciso descosturar o livro e, na sequência, separar as páginas, cujo texto aparece apenas de um lado, com o outro lado ilustrado como um muro. Você, literalmente “desempareda” a história e a personagem.

Confesso que achei esse aspecto do livro fantástico, mas que ele atrapalha um pouco a leitura no decorrer do livro, pois você tem que parar, separar as páginas, seguir, parar, separar as páginas… o que pode ser um suplício para quem tem o hábito de ler rápido. Mas, no quesito “interação divertida”, ele não decepciona.


 

E aí estão! Treze sugestõesde romances que eu li e gostei muito, e que acho que todos deviam ler – por um motivo ou por outro. Pretendo apresentar outras listas em breve, com livros de contos, de poemas, etc. Acompanhem!

Aliás, me acompanhem no Instagram também, costumo postar minhas leituras recentes por lá 🙂

Outra coisa: fiz um vídeo para comentar alguns dos livros apresentados aqui (e outros não comentádos). Vocês podem assistir logo abaixo:

[pb_video component_description=”Vídeo de sugestões de leitura” type=”youtube” src=”https://youtu.be/fWZM0ile4oY”][/pb_video]

 


Foto de capa por Aliis Sinisalu no Unsplash.

Foto de leitora por Mariana Vusiatytska no Unsplash.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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