Crônica: O movimento da anti-pós-verdade


Quero começar um movimento, e vai ser assim: movimento da anti-pós-verdade. O manifesto vai ser curto – quando a gente se alonga muito corre mais risco de falsear. Dizer pouco para dizer certeiro.

A pós-verdade é flébil. Se sustenta do disse que disse, no ‘eu acho que’, ‘vi no facebook’, ‘recebi no whatsapp’. Não se confirma, não se comprova. Em tempos de redes sociais, é mais fácil disseminar uma mentira do que uma praga. A pós-verdade pode nos levar para a fogueira.

Só a anti-pós-verdade nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Exaltaremos a checagem dos fatos antes da opinião. E o respeito às posições contrárias, desde que humanas e embasadas. Afirma? Prove. A vida cotidiana não é questão de fé.

Nos levantaremos contra as crendices e superstições. Ciência é ciência, lei é lei, opinião é opinião. Só me interessa o que não pode ser distorcido ou usado com má-fé. Quero a seiva das coisas.

O que atropela a verdade é a malícia de quem narra. Narradores somos todos, narremos. Mas não queiramos vender limões por tangerinas. A verdade não é questão de fé.

Nos ergamos contra toda a consciência enlatada (que não desenlatou desde a década de 20)! A antropofagia devorou o que pôde: mas há o indigesto e há quem tenha estômago fraco. A anti-pós-verdade pode ser antropofágica também, se isso nos der mais força para o revide. Estão roubando a nossa voz a partir de mentiras de carolas. O revide está em conhecer as coisas desde o mais fundo. E eu quero a seiva das coisas. Eu quero as vísceras.

Só a arte será poupada da checagem: ela é uma verdade que está para além. Ela transborda. A arte só possui deslimites, transgride, humaniza. A arte não vê barreiras.

Para mim, vale menos a arte que diz exatamente o que já está dito: no que ela seria melhor do que o silêncio? No meu manifesto é assim. Se for para dizer algo, que venha como um remexer do de dentro, que escandalize e subverta. Porque a arte empurra a sociedade para frente, renova. A arte puxa o cordão.

No movimento da anti-pós-verdade, a arte merece respeito. Se não a respeitam, ela se impõe mesmo assim. Quebra correntes, liberta multidões. Arte nascida da tormenta. Arte sobrevoando as paisagens montada em um dragão alado (qualquer parecença com personagem de ficção não é mera coincidência – intertextualidade é parte da arte). 

Já diz Mário (o de Andrade): “arte não consegue reproduzir a natureza, nem este é seu fim. Todos os grandes artistas, ora consciente (…), ora inconscientemente (…), foram deformadores da natureza. Donde infiro que o belo artístico é tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural”.

E arte feia também é arte, com outro objetivo estético, outra mensagem, talvez, mas arte. Só não é arte quando dá errado e vai para o lixo. Ou quando não tem objetivo de existir.

A nossa independência ainda não foi proclamada, mas para a arte não deve haver censura. Para a arte não deve haver limites. O que precisa de limites é a ação pejorativa de mentes retrógradas e burras, que não sabem diferenciar fatos e mitos e desejam determinar sobre a linguagem da arte, tão maior que eles próprios.

Pronto: está fundado um movimento.

 


Crônica publicada na versão impressa de O Diário do Norte do Paraná em 16 de setembro de 2017.


Referências das imagens:

Capa: Moss 

Mãos na argila: Karen Maes

Cadernos: Simon Petrol

Mãos pintadas: Tim Marshall

 

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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