Histórias para as crianças que ainda somos


Quando dei aula de literatura infanto-juvenil no curso de Letras lemos vários livros juntos, de forma mais ou menos cronológica, para observar como esse gênero se desenvolveu no Brasil no decorrer dos anos. Eu sempre chamava a atenção para o fato de que os narradores, no início, eram adultos, que determinavam as regras e ensinavam “bons modos”, resolviam os problemas, centralizavam a narrativa e a linguagem. E isso foi assim desde o fim do século XIX, com algumas exceções (as décadas de 20 a 40, por exemplo, foram boas para as crianças, com personagens infantis mais autônomas e menos ênfase nos bons modos – ainda que surgissem aqui e ali). Mas a coisa meio que voltou para a estaca zero com a ditadura (de 1964). Quase tudo era feio, frio e quadradinho, não sei nem como as crianças conseguiam ler.
Daí, principalmente na década de 70, quando a censura estava começando a abrandar, alguns autores (e mais ainda autoras – a literatura infanto-juvenil sempre foi um campo feminino) começaram a ecoar propostas diferentes. Surgiram histórias centradas em personagens infantis, que resolviam os conflitos sem muita interferência dos adultos. A linguagem também foi se tornando mais solta, mais criativa, e havia menos tentativa de moldar o caráter e mais desejo de entreter, ensinar de forma lúdica. Além disso, em vez de “lave as mãos antes de comer” ou “fique quietinho e não falte às aulas”, o discurso passou a ser “seja independente”, “respeite e valorize as diferenças” e “a criatividade, e mesmo certa rebeldia, são normais e muito saudáveis”. Cabe aí “A terra dos meninos pelados”, do Graciliano Ramos. O livro foi publicado em 1937, mas foi relançado na década de 70, provavelmente pelo tanto que dialogava com a época (a gente sabe lutar bem pianinho contra os abusos dos governos, a gente não dá ponto sem nó).
Nesse livro aí, o Raimundo é um menino diferente, porque é careca e tem um olho de cada cor. Ele representa todas as diferenças, todas as minorias: os negros, os homossexuais, as mulheres, os gordos, os pobres, os “especiais” – por falta de palavra melhor. Todos os grupos que são oprimidos socialmente por não serem o padrão. Mas ali, na história, ele só é um menino careca, com um olho de cada cor, de quem os vizinhos debocham por ser diferente. E que vai encontrar forças entre os seus iguais.
Ruth Rocha também foi muito feliz quando publicou, já em 1982, “O Reizinho Mandão”, que era uma crítica velada – ou talvez nem tão velada assim – à ditadura. Isso porque o Reizinho criava leis absurdas e fez com que o seu povo perdesse a voz. Depois de um tempo, o Reizinho queria que as pessoas falassem com ele, mas, por medo, ninguém tinha voz, e ele teve que mudar (sim, as coisas geralmente são mais fáceis na ficção).
O lindo é: os artistas – escritores, pintores, chargistas ou outros mais – sempre são aqueles que sobem pelo meio das fibras do corpo do mundo. Penetram, invadem, discretos. Vão mostrando o que é respeito para quem esqueceu ou nunca aprendeu a respeitar. Vão mostrando o que é verdade para quem se acostumou a falsear. Vão alargando os limites do mundo, abrindo os olhos dos outros, abrindo espaços.
Doutrinação? Não, eu chamo de educação mesmo, educação anti-totalitarismo. A gente nunca pode deixar de ser educado nesse sentido, como sociedade, sob o risco de descambar para regimes autoritários. Aliás, estamos sentindo alguns efeitos nesse ano, é só olhar as notícias para ver. O Brasil anda bem necessitado de artistas.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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