#NovasAutoras: Suélen Dominguês e a arte de perder


Para revigorar e movimentar mais o blog, decidi apresentar para vocês todas semana (se possível) uma nova autora, pouco desconhecida, mas de cujos textos eu gosto. Vou começar localmente, sim, com pessoas que escrevem aqui em Maringá-PR e região, mas pretendo ampliar aos poucos o alcance desse espaço. Assim, se você quer apresentar algum texto seu para aparecer aqui, mande um e-mail para contato@thayspretti.com.br com seu texto e falando um pouquinho sobre você. A única exigência que eu inicialmente coloco é que sejam autorAs. Meninas, moças, mulheres, senhoras que escrevem. Porque, querendo ou não, continua sendo mais difícil para as mulheres se inserirem no espaço da escrita do que para os homens.

Sem mais delongas, o texto que abre o espaço #NovasAutoras é Suélen Dominguês. Ela está se formando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá e no ano que vem (2018) começa o mestrado em Estudos Literários.

Muitos de seus textos trazem uma temática feminista bastante pronunciada, tratando de abuso, machismo, insegurança da mulher nas ruas entre outros. Já em outros textos é clara uma pegada mais existencialista e reflexiva – e por vezes pessimista. Também é comum que apareça em suas produções um enorme carinho e cuidado em relação a personagens não humanos, pássaros, cães, etc.

Em relação à linguagem, seus textos tendem a ser bastante poéticos, ainda que por vezes se aproxime da poesia do grotesco. Há também recorrência de um fluxo de consciência intenso, que beira o histérico, e faz com que o ritmo da leitura se altere de acordo com a emoção do narrador ou personagens.

O texto mandado por ela chama-se “A arte de perder” e traz algumas das características apontadas acima.

Vamos ao texto!


perder

A arte de perder

Suélen Dominguês

“The art of losing isn’t hard to master” – Elizabeth Bishop

Sou mestre em perder as coisas, já até me conformei. Dinheiro, cartão, chave, celular e outras miudezas. Me perco na cidade, esqueço endereço, não sei onde estou e fico zanzando por aí. Não me importo. Cruzo uma avenida, ando, ando, sem pressa. Com licença, você poderia me dar uma informação? onde estou? Aonde você quer ir? Não sei exatamente, só quero me localizar. As pessoas me olham estranhas, explicam e complicam, eu finjo que entendi para evitar aborrecimentos e continuo perdida. Comprimento o cachorro andarilho, oi, dog, como vai? Ele abana a cauda, vou indo, vou indo, em busca da sobrevivência. Tchau, até mais.

Até que encontro algum ponto de referência, ufa. Estive andando em círculos, isso sim. Lá vai o ônibus, dez segundos antes de mim. Não adianta correr, não adianta acenar, o jeito é sentar e esperar. Passa um, passa outro, o meu não vem. Perdi o ônibus, mas ganhei algumas páginas de um livro.

Adiante, o tempo passa, perdi as horas soterrada na cama. Vontade nenhuma de vida. Quero ficar ali no escuro, enrolada em uma penumbra de silêncio. Quero que o pêndulo do mundo se parta e a noite estacione no meu quarto. Mas as obrigações encontram a gente no mais profundo dos esconderijos. Daí eu me arrasto até o banheiro, um banho rápido, um café forte. Agora é correr contra as horas.

Perdi a fome. A úlcera corrói as entranhas do estômago e arde. Quero um doce, minha boca está amarga, seca. Não há alimento algum que sacie essa nossa fome perdida. A gente cresce desnutrida, o coração sem vitamina, pulsa, pulsa por rotina. Faltou no meu prato uma salada mista, garçom, vê pra mim, amor, compreensão, empatia. Digo, um suco de laranja, apenas.

Nada que todo mundo não conheça decorado e salteado. No nascimento perdi o calor do útero, o cordão umbilical, depois ganhei para perder dentes, movimentos, linguagem. Perdi meus dentes de leite, recentemente o siso e, diz minha mãe, perdi o juízo. A frase cortada, o grito afiado, a voz calada, eu perdi.

Meu livro favorito, meu vestido de criança, um álbum com fotografias da infância, minhas músicas, a entrada do cinema, o começo do filme, o final da história. Perdi tantos e tantos amigos que mal consigo contar. Um eu perdi para a polícia, o tiro, a morte e o silêncio frio. Outro eu perdi em grave acidente, a colisão, dias antes a gente estava conversando sobre o futuro e depois era um corpo desfigurado e enfeitado com margaridas brancas. Senti enjoo da vida e nessas mortes perdi mais um pouquinho de alguma coisa perdida. A maioria dos amigos eu perdi nas calçadas, nos cumprimentos secos, nas conversas cada vez mais escassas, nas esquinas desviadas, nas lonjuras construídas pelas ausências.

O destino perdi por acaso. A identidade, o CPF e a carteira de trabalho. Sem rumo, sem prumo, perdi também o título de eleitor. Nesse país perdido, perdi a esperança. A gente é um nada, um zero, nulo. Com a falsa felicidade, jovem, você é o futuro, o futuro perdido nas mãos dos políticos. O mendigo abandonado na calçada, a criança chorando, o pai ausente, a miséria presente, o animal maltratado, a mulher violentada, perdi a fé e me perdi de deus.

Santa é a ignorância que bota cabresto no homem, porque sem ela a gente vê as torturas do mundo. A vida não é um castelo, os monstros moram logo ali e felizes para sempre não existe, perdi a inocência. Por outro lado, maldita é a ignorância que bota cabresto no homem, porque bicho nenhum foi feito para viver nas amarras, olhando todos os dias o mesmo horizonte, comendo da mesma grama azeda, sem saber que o mundo não é quadrado. Perdi a paciência com gente hipócrita, com a religião totalitária, com o preconceito e o ódio. Na minha mesa não senta gente vazia, do meu sal não sirvo gente insossa, perdi minha tolerância.

Amores que julguei eternos. Minha alma gêmea, a metade da laranja, a tampa da minha panela. Estava escrito nas estrelas, desenhado no brilho do olhar, impossível de se acabar. Muito antes de perder eu já havia perdido, é que a gente ignora, faz vista grossa, por medo de viver sozinha. A solidão é desesperadora para quem tem medo de conviver com os próprios demônios. Com penoso desarraigar, quando perdi um tiquinho da minha obsessão, percebi que o amor é muito vasto para ser trancafiado em uma única definição. O amor se define de dentro para fora.

Nesse labirinto que chamamos de vida, tantas coisas eu perdi, tantas vezes julguei, é o fim. Alagada, nem sempre a gente olha para além da ilha, umbigo nosso. Tantas coisas eu ganhei. Os amigos, os abraços, as conversas, os sorrisos. Às vezes, perder é ganhar, a gente se machuca, arde, chora, implora. As feridas sangram e a gente se renova. As cicatrizes condecoradas no peito, lutei, perdi, venci, tantas vezes.

De tudo que se perde o que mais me transtorna é ter me perdido de mim. Onde? Quando? Como? Não sei. Desde de então, venho me procurando. Cravei em mim uma estaca, um fiozinho amarrado, e nas tessituras dos passos prossigo, me busco no ar, no oceano, no silêncio. Me avisto, me perco, procuro no medo, na angústia, no desespero. Me descubro no olhar compreensivo, no livro, na palavra, na amiga. Um pisco e já não sei onde estou. Aqui dentro de mim, na criança que fui, na adolescente que aos pouquinhos se esvai, na mulher que se aproxima e sussurra, vem, sem pressa, muito prazer, eu sou você.


Gostaram? Deixem seus comentários! E se souberem de alguma moça que escreve e que queira aparecer por aqui, avisa ela desse espaço!

Até a próxima!

 

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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