#NovasAutoras: Ana Favorin e a Água no Quintal


Continuando com a proposta de apresentar para vocês novas autoras e ainda falando localmente (Maringá-PR e região), apresento hoje para vocês uma escritora de quem gosto muito, tanto na prosa quanto na poesia: Ana Favorin. Assim como a Suélen Domingues da postagem anterior, ela está se formando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá e no ano que vem (2018) começa o mestrado em Estudos Literários.

Falar da Ana como nova autora é quase um erro, pois apesar de bem jovem, ela já publica há algum tempo no seu Tumblr e blog – ambos com o poético nome de “Água no Quintal“. Aliás, vale muito a pena acompanhar seu blog, é sempre uma delícia de se ler!

Seus textos muito frequentemente trazem uma preocupação social bastante latente, muito provavelmente devido a seu contato com o teatro de Brecht e com o teatro épico de forma geral. Apesar disso, sua linguagem não deixa nunca de ser poética, e podemos perceber em seus textos a influência da linguagem de Hilda Hilst, Ana Cristina César, Clarice Lispector e mesmo Adélia Prado. Diferentemente da linguagem da Suélen, que às vezes se torna árida, a linguagem da Ana é dificilmente seca. Na grande maioria das vezes, é toda úmida e faz muito juz ao nome de seu espaço (Água no Quintal).

É bastante ativa no grupo Visceral – Experiências Literárias, onde nos presenteia com poemas e pequenos trechos de prosa poética, principalmente. Há, por vezes, uma reflexão sobre o próprio fazer poético e muitas, muitas personagens femininas. Muitas Marias, simples, cotidianas – e inesperadamente profundas. Apesar disso, também trabalha muito bem com personagens masculinos, como podemos perceber no texto abaixo.

O texto mandado por ela chama-se “Bilhete Azul” e traz algumas das características apontadas acima.

Vamos ao texto!


Bilhete Azul

Ana Favorin

Botas pretas e pesadas contra a gentileza da grama e das flores. Anda meio cambaleante, pelo álcool e pela surpresa de pisar numa superfície que não é concreto duro e cinzento. Punhos cerrados, olhos inflamados. A força dos pés. A fragilidade das pequenas flores amarelas que salteavam o verde, a perder de vista. Brutos pés que a todos esmagam. Bruto homem. Esmagado homem. Os dentes se apertam até doerem. Se pudesse, esmagariam uns aos outros naquela boca amarga e rude. Desconhecia o caminho que suas pernas haviam feito até ali, desconhecia a força de seus dentes truculentos, desconhecia a si mesmo e à temperatura do próprio peito. E peito pra quê? Peito é essa coisa que infarta antes dos cinquenta, desampara mulher e filhos ou invalida a gente. E a gente que precisa tanto ser válido.

Não sentia-se válido. Na mistura de verdes e cores que se confundiam, o cinza das horas anteriores martelava na cabeça, bem no meio da testa, e ia se espalhando pelas têmporas, descendo o pescoço e pesava, bem ali, sobre os ombros. O cinza do concreto. Como se não pudesse suportar, encosta-se numa árvore. O frescor daquela vida é, também, seu próprio frescor. Experimentado pela primeira vez. Num lampejo se lembra de Ana, a esposa, mãe, tão mulher e viva. Lembra da vez, meses antes, em que ela falou baixinho, quase num sussurro, “Estive no parque”. Um segredo que se apagou, sem que ele tivesse feito mais nenhuma pergunta. Agora compreendia a gravidade da frase, a experiência gigante, úmida e esverdeada da qual a esposa o havia excluído. Sentiu-se traído por um milésimo de segundo, depois sentiu-se amado. Amado ao dar-se conta de que Ana experimentara todas aquelas cores e, ainda assim, no fim do dia, voltou para o cinza do apartamento que mantinham com tanto custo, na mornidão do que chamavam amor. E que seria o amor, se não isso?

O despertar idêntico de todas as manhãs. O aço firme da navalha barbeando a cara. Vez ou outra um corte. Um palavrão. raiva. Nunca lamento. Nunca tristeza. E agora a fragilidade de algumas flores esmagadas sob suas botas. Sentiu-se mau de repente. Descalçou as botas. Viu uma aranha, com suas patas luxuosas, conhecidas de Ana. Ana. Ela gosta mais de mim que daquelas vasilhas, as Tupperwares. Pensou com o esboço de riso que nunca vingava, evocando a imagem do armário abarrotado de potinhos com tampas coloridas. E repara as próprias mãos, tão cansadas e rudes. O preto embaixo das unhas. O vai e vem de gente logo ali, caminhando firmes. Ninguém vê a gente, mas eu vejo Ana, Maria, Ana Maria de Souza é nome inteiro dela. Tem um cabelo bonito, mas ela alisa. Eu não gosto. De novo esboça o riso que não vinga.

Enxuga uma lágrima. Um pouco de terra nas mãos que haviam se encontrado com a grama. E é tão bobo e pequeno, no susto de flagrar-se frágil, com os pés nus e leves sobre a grama salteada de flores amarelas. Tira do bolso o bilhete azul, sua carta de demissão, outras lágrimas vêm juntar-se à primeira, aperta o pequeno papel entre os dedos com ódio e, ao mesmo tempo, com a doçura que experimentara ali. Amor é a coragem com a qual voltou pra casa no fim daquele dia.


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Até a próxima!

 

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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