#NovasAutoras: Mayara Blasi, com ressaca de gente


Já apresentei aqui nesse espaço duas moças de cujos textos gosto muito, a Suélen Domingues e a Ana Favorin. As duas tem textos ótimos, e fico muito feliz de tê-las conhecido e de ter trabalhado com elas numa oficina de escrita durante um tempo. São pessoas maravilhosas que o curso de Letras me trouxe. Outra pessoa incrível com a qual o curso de Letras me presenteou é a Mayara Blasi, e tô para dizer que, da galera que escreve aqui em Maringá, ela é aquela cujos textos eu mais admiro (embora não publique muito o que escreve).

A linguagem da Mayara é extremamente poética. Brincar com a sonoridade das frases, criar palavras novas para percepções antigas, tudo isso é coisa que se acha nos textos que ela escreve. Minha impressão deles é que são, ao mesmo tempo, solares e com um tanto de nuvens. Isso porque ela geralmente se aprofunda na reflexão do narrador, criando uma narrativa expressionista, intimista, subjetiva – às vezes mesmo nostálgica – mas sempre com um traço alegre, que “clareia” um pouco o ar da reflexão do texto. Essa parte alegre, acredito que venha do aspecto lúdico da linguagem, da liberdade que Mayara se permite ao lidar com as palavras.

O texto mandado por ela chama-se “Ressaca de gente“. É um dos meus preferidos (gosto muito de um outro também com bicicletas, talvez eu peça para postar aqui) e traz algumas das características apontadas acima.

Vamos ao texto!


mayara blasi ressaca de gente

Ressaca de Gente

Mayara Blasi

 

Gente das artes, gente da psico, gente das letras, outras gentes, o sol se pondo sobre a cidade que assiste a tudo de longe. Todo mundo amuitado em álcool, conversas fundas no começo e confusas no final, frases repetidas e sorridas. A música diminuída pela fala, a casa que escuta e guarda.

Ela vai até o som e seleciona a banda que mais gosta. Se queria dançando o espaço todo da sala, não desobedece vontade. A dona da casa e sua cã há muito dividiam o sofá, suas barrigas pra cima. Já não era mais festa e seu corpo desentendia. Queria conversar, arrastar o pé, tomar mais uma. Ele fumava o último cigarro no deck.

Saem dali bêbados, o caminho de volta bem mais curto. O que tem pra comer em casa? Pão, presunto, queijo, pão. Ela repassa as conversas da festa com ele, não para de falar, seu cérebro vivo. Dois sanduíches meio errados. Aquele cara de óculos, sabe? Achei nada a ver o que ele disse, sobre moda. Uhm, e eu não entendo na-da de moda. Deixa esse pedaço pra mim, por favor? Fazia tempo que você não tocava né? Ele mais bêbado, menos palavras. Mas não foi legal o Andrey e a Camila estarem lá? Vamos dormir.

As pessoas vivas nela, ela muitas naquele momento. Não consegue colocar todo mundo pra dormir e se sozinhar. Ele pede pra apagar a luz. Diz que ela não devia ter tomado bala. Não tomei bala. Então colocaram dróga na sua bebida. Riem. Ela cheia. Engordecida das conversas de gente que desconhecia, ou que conhecia pouco e ficou conhecendo, ou que há muito não via, precisa digerir todo mundo antes de dormir.

Gato, vamos conversar? Vamos dormir, apaga a luz. Bala. Ela lembrava o baccarat ou sua releitura no copo barato, EuroDisney, Silvio Santos, a academia como mercado, a frustração com a aula e… o texto do Adorno! O ensaio como forma. Ligo a luz e anoto ou vou lembrar amanhã? O dó, o mi e o sol do trompete, assim ó. Aqui os sustenidos. As notas vivas sem os dedos. Não lembrava o nome da mulher do Paulo na hora, ainda não lembra. A surf music que agrada os vizinhos, a belly dancer que dança e filma ao mesmo tempo. Não vai ficar bom. Não era só isso. Era muita, mas muita coisa, ao mesmo tempo. O Tiago pulando. A nova integrante da casa no colo, pelo de cão de raça a vira-lata. Mais cerveja? O problema da relação entre o designer e o cliente é que o cliente nunca sabe seu objetivo. Chato. O Joyce de novo. Valter Hugo Mãe. É Mãe porque ele não foi pai, se arrepende. Por que não Pai então? É, por quê? Baccarat, você sabia? Péricles! Nome engraçado. Péricles, Péricles! Explica aqui o que você me disse do copo, simulacro. Seu cabelo ficou ótimo curto, da outra vez… Vamos juntas no banheiro pra gente não perder o fio da conversa. Pega o CD, é de graça. Meu pai vai gostar. A biblioteca do Augusto tá pronta.

Os olhos vivos atrás das pálpebras, o corpo cansado. Pega no sono. Sonho, sonho, gente, sonho, o excesso de sonhos vira pesadelo e ela acorda. Vira o copo d’água com goles grandes, rápido. Seu corpo de novo, ou ainda, aceso. Ela senta nas pernas tentando abrir o escuro com os olhos. Aperta o celular, 3:25, precisa dormir, a manhã precisa ser vivida, tem aquelas leituras… Deita de novo. Tenta a posição mais certeira, em vão. Corre as mãos nas costas dele, devagar, seu olho ainda aberto no escuro.

Arruma de novo a coberta, não sabe se tá frio suficiente pra se cobrir. Não consegue ficar sem ela. 4:12. Levanta, veste o chinelo e vai até a cozinha. Enche o copo com água e escolhe uma maçã na sacola, machucada. Seu olho pesado. Troca por outra, e por outra. Acaba ficando com a primeira. Tira as partes doentes com a faca. Não sei se eu quero comer maçã. Seu corpo como que segurado por uma sombra. Come o que resta da maçã contornando com cuidado o miolo podre. Vou dar um pedaço pro pagagaio, papagaio. Ele não se mexe, tá dormindo? Volta pro quarto se diminuindo. O peito vivo. 5:00. Ele acorda.

Gata, gata, água! Obrigado. Tô doente. Vou ficar doente, já era. A janela tá aberta?

Ele deita de novo. Ela olha pra ele prometendo cuidado. Tem diminuído agora o mundaréu de dentro. E dorme.


Gostaram? Deixem seus comentários! E se souberem de alguma moça que escreve e que queira aparecer por aqui, avisa ela desse espaço!

Para apresentar algum texto seu para aparecer aqui, mande um e-mail para contato@thayspretti.com.br com seu texto e falando um pouquinho sobre você. A única exigência que eu inicialmente coloco é que sejam autorAs. Meninas, moças, mulheres, senhoras que escrevem. Porque, querendo ou não, continua sendo muito mais difícil para as mulheres se inserirem no espaço da escrita do que é para os homens.

Até a próxima!

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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