Crônica: Oceânica


O difícil mesmo é começar a escrever: depois disso, uma palavra puxa a outra, depois delas vem mais uma, outra logo se cola às que vieram antes e, quando menos se espera, lá está o primeiro ponto final. E a ideia vai se desincompletando. O caldo ganha corpo, o corpo ganha força, a força ganha uso e direção. Fecha-se, assim, o primeiro parágrafo.

Depois a gente vai refazendo o processo, dando braçadas, empurrando a água, puxando o corpo adiante. Escrever, aliás, acho que tem um pouco de familiaridade com nadar (escrever, para mim, tem familiaridade com muitas coisas, poderia listar). Você toma fôlego, mergulha-se. Sente a água correndo pelos lados do corpo. Eu rodeada por todos os lados, água molhando cada pedaço de mim. A ideia rodeando a mente por todos os lados. Texto úmido, escorrendo pela folha de papel. Não sei se há qualquer coisa que seja assim tão úmida quanto escrever.

 

O texto é uma onda. A onda vem e me lava os pés. O texto vem e me lava a alma. Olho para o horizonte que se estende por cima das ondas, seu ser sem fim. Olho para o infinito que paira por cima do texto, sempre extenso, sempre amplo. Dois infinitos que na verdade são um só: a revelação do eu infinitamente pequeno. Não há nada menor do que existir. Sou humilde e baixo os olhos diante do encontro do céu e do mar.

 

Escrever é pulsante. Como o mar, como o sangue, como a respiração. Corpo vivo, tem uma vida toda independente de mim. Vivo, apartado de mim: é filho, não membro. Parido, desconexo. Não se move de acordo com meu impulso ou desejo. E é sempre urgente, mesmo quando difícil. Porque se tem vezes que as palavras escorrem fácil, tem outras em que a gente quase morre de sede. Mas elas pingam, sempre pingam. Escorrem gota a gota. A paciência é fundamental quando não se tem uma fonte abundante onde se possa matar a sede.

 

Mas o difícil mesmo é começar. Porque o texto, dessa vez, é diferente do mar: ele não está ali. Ele é subterrâneo, um veio de ouro líquido escondido, encravado na terra, à espera de ser encontrado. Eu cavo com as mãos para sentir a água brotar. O fresco da água brotando. Eu cavo com os dedos em garras. Eu cavo como quem está para morrer.

 

E eu morro. Sem escrever, sem mergulhar assim fundo em mim, eu morro, morro muitas vezes. Porque o que eu preciso para sobreviver é estar rodeada de água, essa onda que me lava, que me leva. Será que você entende o que é submergir?

 

O artista é a antena da sociedade – eu já li e ouvi por aí. Eu me incomodo com isso. Antena é algo que fica lá no alto, distante, ao vento. Não me sinto artista se for assim – descolada, metálica, seca. Para ser antena, só sendo antena submarina. Uma antena que captasse o que irradia em volta e o que vibra nas profundezas oceânicas do que é ser alguém – do que é estar conectado com o corpo profundo do mundo, o sangue do mundo, pulsando.

 

Oceânica. Queria até poder usar isso como um adjetivo. Diria tudo sobre mim, e sobre a umidade que existe dentro das minhas palavras. O verde musgo que brota de cada uma delas. Cheiro de coisa quente e viva. Sobre mim, perguntariam, “e ela, como é?” Do outro lado responderiam apenas: “ela é assim, sabe? Escura. Oceânica”.

 

 

 

 

 

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Crônica publicada em O Diário do Norte do Paraná em 02 de dezembro de 2017.

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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