#NovasAutoras: Vanessa Leal e o reparador de sonhos


O #NovasAutoras ainda não está com regularidade semanal, como eu gostaria, mas aos pouquinhos vão surgindo novas escritoras que desejam mostrar seus textinhos aqui, e isso é muito legal. Também quero começar a buscar uns textos de escritoras contemporâneas das quais gosto e apresentar para vocês, mas isso fica para depois. Por ora, quero apresentar mais alguém aqui de Maringá, que mandou alguns poemas que eu gostei bastante! Escolhi um deles para vocês verem. Ele tem uma pegada de história infantil, mas dá para pegar bem o estilo da escritora.

Eu estou falando de Vanessa Valles Leal, e o texto que vou apresentar para vocês é O reparador de sonhos. Dei aula para ela em 2015 e 2016, mas não sabia que escrevia poemas. Fiquei sabendo agora, por conta desse projeto aqui do Desalinho.

O estilo dela é mais regular e padronizado do que das moças que apresentei anterioremente – que tem um estilo mais solto e afeito às quebras de regras. A Vanessa, ao contrário, trabalha muito bem com o que há de mais tradicional na poesia: rimas, cadência, organização de versos em estrofes mais ou menos regulares. Ao mesmo tempo, traz certas bonitezas para o texto, especialmente quando brinca com neologismos e a ideia que esses neologismos guardam.

O poema que se segue ainda tem outra característica que gosto bastante de encontrar em poemas: um universo afeito ao narrativo, com a criação de personagens e de alguns elementos de uma espécie de enredo. Acho muito interessante quando gêneros diferentes se costuram assim. A coisa toda fica muito mais divertida.

A respeito do fato de ser um texto voltado para o público infantil, ainda tem outra coisa muito interessante aqui: é muito fácil conseguir imaginar esse poema em um livro ilustrado. O texto parece chamar a ilustração e creio que se afinaria muito confortavelmente com ele.

Enfim, vamos ao texto!


Vanessa Leal e o reparador de sonhos

O reparador de sonhos

Vanessa Leal

 

O Senhor Keirós trabalhava dia e noite, noite e dia, concertando quinquinharia.
Sua especialidade era ressuscitar relógios que perderam o fôlego depois de tanto pernear seus ponteiros.
Mas ele também consertava outras coisas. Cada iguaria!
Deixava felizes os fregueses faceiros,
Que espiculavam e palpitavam haver magia
No baú que guardava a ferramentaria.

Um dia, o senhor Keirós recebeu um menino com sua bolinha de gude para desrachar…
Noutro dia, uma velhinha que trouxe sua colher de mexer doce para desquebrar…
Numa tarde de não se sabe quando, uma menina levou sua boneca para a língua de trapo para recosturar…
De tudo se podia esperar. E tudo seu Keirós podia arrumar.
Certa vez, ele curou um amor doente.
Bastava lhe dar a coisa desvalida, que, em seu momento, ele tornava à vida.

Era fim de tardezinha, quando bateu a sua porta uma criaturinha
Que levava consigo um grosso caderno e uma peninha.
Não conseguia tirar da pena a caligrafia.
Logo, foi à procura da milagrosa alquimia.
Era um poeta angustiado
Que já não aguentava mais sofrer calado.

Talvez essa fosse a maior encomenda já recebida por Keirós.
Talvez fosse a visita mais inesperada, ou fosse o anfitrião mais inusitado.
Enquanto manufaturava (quase que um artesanato) o anterior pedido,
O poeta inspirado perguntou ao reparador, entusiasmado,
Como ele conseguia lidar tão bem com tal ofício.
O senhor, então revelou o mistério:

As pessoas só sabem se desfazer (d)as coisas, se desfazer umas (d)as outras.
Para ser um bom reparador, é necessário ser um bom observador.
E devolveu a palavra ao poeta
Restaurando mais um sonho.


Gostaram? Deixem seus comentários! E se souberem de alguma moça que escreve e que queira aparecer por aqui, avisa ela desse espaço!

Para apresentar algum texto seu para aparecer aqui, mande um e-mail para contato@thayspretti.com.br com seu texto e falando um pouquinho sobre você. A única exigência que eu inicialmente coloco é que sejam autorAs. Meninas, moças, mulheres, senhoras que escrevem. Porque, querendo ou não, continua sendo muito mais difícil para as mulheres se inserirem no espaço da escrita do que é para os homens.

Sobre as outras escritoras já apresentadas aqui, segue a lista, em ordem alfabética:

Ana Favorin

Mayara Blasi

Suélen Domingues

 

Até a próxima!

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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