Livros para Março – 2018


Hoje eu estou aqui para falar um pouco a respeito dos livros que eu li nesse mês de março.

Foram quatro livros escolhidos, na intenção de ser uma média de um livro por semana. A coisa não funciona assim, claro, já que tinha livro longo, livro curtinho, livro em inglês e em português. Mas joguei pela média e acho que funcionou bem.

Bird by bird

O primeiro que eu li foi Bird by Bird, da Anne Lamott. Li em inglês, mas tem tradução no Brasil, chamada Palavra por Palavra. Vou colocar o link para compra das duas versões, caso tenham interesse por um ou por outro. Eu, particularmente, acho a versão em inglês bem fácil de ler, já que a autora se preocupa em usar uma linguagem leve e bastante acessível. Além disso, o título fica muito mais poético na versão em inglês. Ele se refere a um conselho que o pai de Anne deu ao irmão dela, em certa ocasião em que ele, ainda menino, estava fazendo um trabalho sobre pássaros. O irmão de Anne teria ficado um pouco agitado pela quantidade de pássaros sobre os quais ele precisava escrever e o pai teria acalmado o filho aconselhando-o a escrever tranquilamente, bird by bird, pássaro por pássaro. A ideia é de não se afobar, se preocupar com uma coisa de cada vez, seguir o fluxo. Na tradução, a sugestão do pai é que o menino faça o trabalho palavra por palavra, o que significa a mesma coisa, sim, mas eu prefiro a imagem dos pássaros, hehe.

É um livro para todos aqueles que escrevem ou querem escrever, onde ela deixa claro que só há um caminho para essas pessoas: o compromisso completo com o processo da escrita. Nesse sentido, ela afirma constantemente que a recompensa da escrita é a própria escrita. Porém, faz isso da maneira mais confortável e amena possível, aliviando muitas das ansiedades que “vêm no pacote” do ato da escrita.

Várias situações descritas por ela tem muito mais a ver com o mercado editorial americado do que com o brasileiro, claro. Muita coisa precisaria ser repensada para se encaixar à nossa realidade. Mas, de forma geral, é um livro muito bom, especialmente para os nossos momentos de crise existencial e bloqueio criativo. O conselho sobre o qual o livro se alicerça – escreva bird by bird / palavra por palavra – é capaz de nos “destravar” de várias formas diferentes. Recomendo bastante!

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O prazer do texto

Minha segunda leitura desse mês de março foi O prazer do Texto, do Roland Barthes (Le plaisir du texte, no original). Com certeza, já é um livro que precisa de mais background, pois é um texto que mescla filosofia e experimentações bastante artísticas da linguagem.

Os conceitos mais explorados por ele nesse  livro são a ideia de prazer (na leitura e na escritura do texto) e fruição (optou-se por esse termo na tradução de jouissance, que é um conceito que mescla prazer e dor). Barthes fala menos a respeito desse segundo conceito,  mas ele está claramente relacionado à leitura analítica do texto literário, uma leitura mais lenta e dedicada à compreensão de cada detalhe da obra. Além disso, ele aponta a leitura de fruição como sendo a mais adequada para os textos contemporâneos, enquanto que os textos mais clássicos (e de massa) merecem/podem receber uma leitura de prazer. Essa leitura, diferentemente da leitura de fruição, não se atém a todos os detalhes da obra, podendo pular trechos, “acelerar” cenas descritivas, etc. O leitor é que “comanda o ritmo” daquilo que lê.

Também é interessante chamar a atenção para a carga de erotismo que há em torno da escrita e da leitura a partir da visão de Barthes. Mais do que ações eróticas, escrever e ler passam a ter certa relação com o corpo, além de sua já óbvia relação com a mente.

É um livro excelente para deixar a criatividade solta, especialmente no que se refere à estética.

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To Kill a Mockingbird

To Kill a Mockingbird, ou O Sol é para Todos, de Harper Lee, foi uma grata surpresa desse mês. Eu sabia mais ou menos a respeito do que se tratava a história – um advogado branco que tenta defender um homem negro acusado injustamento de ter agredido sexualmente uma mulher branca -, mas a forma como ela é contada foi algo que me surpreendeu muito. Primeiro, pelo fato de a voz narrativa ter sido dada à filha desse advogado, que narra os fatos a partir de seu ponto de vista, de modo que os acontecimentos do livro também funcionam como a narração do amadurecimento da menina. Segundo, porque o início da história nem sequer anuncia o que vai ser o ponto alto da história, ainda que alguns persnagens importantes para o desfecho da história já estejam desfilando por ali.

O livro é um pouco mais difícil de ler em inglês do que Bird by bird, em parte pelo refinamento, em parte pelo uso de dialetos nos diálogos, o que faz com que cada conversa entre os personagens seja um pequeno exercício de decifração. Minha aventura, porém, foi bastante agradável devido a uma ideia um pouco excêntrica: ouvi ao audiobook ao mesmo tempo em que lia o livro, para melhorar a escuta do inglês e o conhecimento da pronúncia das palavras. O audiobook que encontrei está disponível por completo no Youtube nesse link aqui, e é maravilhoso, especialmente porque a leitora faz uma excelente leitura dramática, além de ter o sotaque perfeito para o contexto do livro. Se você optar por fazer a leitura desse livro no inglês, sugiro que faça o mesmo. Sua experiência vai ser muito mais completa.

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Manual da faxineira

Manual da faxineira, de Lucia Berlin, é um livro que chama muita atenção de cara pelo título curioso e pela capa, uma arte bastante divertida da Companhia das Letras. É uma coletânea de contos, o que é um estilo que eu gosto bastante, e a ambientação criada pela autora é digno de um estudo apurado, podendo vir muito a calhar quando se está buscando inspirações de como criar lugares “degenerados” que transmitam essa sensação, sem ser óbvio.

É interessante também que a maior parte dos contos – se não todos – tem inspiração biográfica, com a menção do próprio nome da autora, além de características físicas marcantes, como seu problema de coluna, dentro de alguns contos. Não sei se isso se encaixaria no que chamam atualmente de autoficção, mas perceber como a vida dela se torna matéria para a escrita é bastante interessante.

A única coisa que me incomodou no livro é que a maioria dos contos são anticlimáticos: há toda uma preparação para um desfecho impressionante que simplesmente não acontece. O leitor é abandonado em suspenso, no meio de algo que parece inacabado. Acredito que isso seja decorrente da escolha da autora, sendo, assim, uma opção estética. Mas se pudermos aproximar um texto da ideia de “coito interrompido”, acredito que vários dos contos desse livro sejam bons exemplos disso.

Recomendo o livro, mas com ressalvas. É muito interessante por vários aspectos, mas o leitor precisa aceitar a constante sensação de ter sido interrompido antes do fim.

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E esses foram os livros do mês de março.

Para abril, a lista está composta por:

1. O que é comunicação poética, Décio Pignatari
2. Writing down the bones, Natalie Goldberg
3. Mrs. Dalloway, Virginia Woolf
4. O melhor de João Guimarães Rosa

 

Fiz também um vídeo falando sobre esses livros, está lá no canal.

E é isso por hoje!

 

Até a próxima!

Thays Pretti

Escreve crônicas para O Diário do Norte do Paraná desde 2015, mas já escreve em blogs desde a adolescência. Tem contos em algumas antologias e um livro na Amazon, "Efêmeras". Gosta mais de escrever do que de paçoca. E olha que gosta de paçoca, hein?

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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