Crônica: Pulsações


Lentamente, espalha-se pelo chão a aurora fria e cristalina, alumiando árvore, monte, rio. Sonolenta, vai puxando delicadamente o lençol noturno: o despertar nunca é brusco. É tempo, é hora, há urgência. Mas o dia não tem pressa. O que está em torno, respira. No que se prepara, sensibilidades. Profundidades se buscam, há incompletude no gesto,

Crônica: Sobre máscaras e personagens


É preciso ser sincera: existe uma dificuldade imensa em ser professora quando se é introvertida. Aliás, não só em ser professora. Ser introvertida faz com que todo contato com outra pessoa seja potencialmente complexo: o universo da pessoa introvertida está interditado ao encontro com o outro, tudo parece insignificante demais para ser dito e, por

Crônica: Feijão nosso de cada dia


Hoje, tudo amanheceu diferente. Não sei se você notou. Há uma coisa no ar, uma aura, um cheiro de não-sei-o-quê: talvez seja feijão no fogo. Parece que em cada casa, cada apartamento, cada assentamento, cada oca, cada barraco, cada canto embaixo de uma ponte onde haja um foguinho e uma lata, estão cozinhando feijão. À

Crônica: Em defesa da barraqueira


Desde que o mundo é mundo, os seres humanos tendem a adotar alguns tipos sociais dentro do grupo. Tem o esforçado, o legalzão, o irritante, o que ouve música alta no transporte público. Tem o amante de som automotivo e o que só ouve indie, deixa barba crescer, usa chapéu. Tem a mãezona e a

Crônica: Cinco minutos


Não fiquei sabendo seu nome, até porque não importava. Sendo inconscientemente um sósia do filósofo que serviu de suporte para minha pesquisa no Mestrado, ele não precisava ter um nome mesmo. E talvez até tenha se apresentado quando minha amiga A. chegou até a mesa dele, num restaurante perto da UTFPR de Guarapuava, perguntando se

Sou contra


Começou quase que por acaso, numa conversa de bar. Depois de um pouco de cerveja ter animado seus ânimos, ele declarou: – Sou contra. Ninguém havia dito nada antes. Ninguém estava discutindo qualquer coisa relevante. Não havia o que contrariar. – O quê? – Sou contra. – Quê?! Tá maluco, mano? – Não. Decidi ser

Crônica: O cão


O cão me encontrou no caminho para o trabalho. Era um cão negro, médio, molhado pela chuva que passou. Talvez tenha simpatizado com o fato de eu também vestir negro, o cão. Talvez fosse apenas o acaso de estarmos indo para a mesma direção. Fato é que comecei a buscá-lo com o olhar e me

Crônica: Simples como um aperto de mão


Sobre a língua, a saliva pairava inexplicavelmente grossa como sangue coagulado. Mas ele não engolia, não cuspia, e a saliva permanecia ali, densa, morna, lodosa. Os olhos, mantinha-os vítreos; o sorriso, plástico. Homens sociais, cumprimentavam-se mutuamente na dissimulação de uma simpatia. Falsa. Ambos se detestavam. O primeiro soltava a mão do outro com a amargura

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Quem escreve

Thays Pretti

Thays Pretti

Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá, escrevo desde que me entendo por gente. Gosto de literatura escrita por mulheres, e também de literatura com pegada social ou existencialista. Gosto mais de livros de ficção do que de teoria, e prefiro a poesia ao pó.

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